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Eis-me aqui, no limiar de um novo ano, espreitando-o com expectativa e curiosidade.
Medo? Medo também, confesso.
2020 roubou-me muitas coisas. Roubou-nos a todos.
Foi o ano mais difícil da minha vida. Quebrei e tenho estado a tentar recompor-me, estilhaço a estilhaço.
Quando descobri que estava grávida, era uma médica de família esgotada, a "fazer das tripas coração",
a fazer um esforço desumano por ajudar, por manter o sorriso nos lábios para aqueles que precisavam de mim.
Pensei que conseguiria fazer tudo, como sempre tenho feito.
Imaginei, inocentemente, que conseguia ser mãe e ser uma médica a dar 300% para combater a pandemia.
Não fui. Parti. Na ânsia de ajudar os outros, esqueci-me de mim, e do filho que me crescia no ventre.
Tive de tomar a difícil decisão de ir para casa. Custou.
Custou porque imaginei o rosto de muitos dos meus doentes, as suas histórias, as suas palavras...
Custou porque imaginei os meus colegas a esforçarem-se ainda mais para dar resposta aos pedidos de mais 1800 utentes...
Mas não tive alternativa...tive de aprender a "dizer não", pela minha saúde (física e mental) e a do meu filho.
Neste contexto, decidimos, eu e o Diogo, que o Estuário do Tejo já não estava a servir para nós.
As saudades da família eram demasiadas, o peso da solidão imenso,
e com um pequenino a caminho, fazia sentido regressar ao nosso Norte.
Tomámos a decisão - irrevogável - de perder o medo e avançar para a incerteza,
em busca do conforto do Minho e dos braços dos nossos familiares.
Enquanto o Diogo estava ao telefone a tratar dos preparativos para vir para Braga,
eu entrei numa sala escura para fazer a minha ecografia do 1º trimestre.
O meu coração ia cheio de esperança pelo futuro, mas esta foi esmagada:
o meu filho tinha uma malformação grave e incompatível com a vida.
Nas semanas seguintes, o que se seguiu foi saído do meu pior pesadelo.
Falei sobre a minha experiência de perda gestacional no meu Instagram @_nadiasepulveda,
porque senti que me ajudava e poderia ajudar outros casais.
Vendo o meu sonho esmigalhar-se daquela forma,
aumentou a certeza de que o meu caminho teria de mudar,
de que precisava de cuidar de mim antes de voltar a cuidar de outros.
Assim tenho feito.
Hoje estou em Braga, com o Diogo, no conforto da casa dos meus pais,
a deixar-me envolver pelo calor do que me é familiar.
As minhas emoções têm tido altos e baixos.
Racionalmente, sei que 2021 tem tudo para dar certo,
que em breve poderemos tentar ter um segundo bebé,
que o Diogo se está a estabelecer bem profissionalmente,
que já temos uma futura casa (alugada para já) onde iremos reconstruir o nosso lar,
e que temos, acima de tudo, muitas pessoas a dar-nos a mão.
Mas uma parte de mim, a emotiva, oscila entre uma esperança e tranquilidade imensas para 2021,
e um medo profundo de nunca mais ser feliz, de ter perdido essa capacidade.
É um equilíbrio periclitante.
Há dias em que me sinto capaz de tudo,
de sobreviver a todos os desafios depois da difícil noite em que tive de dar à luz um filho que não conseguia singrar,
a 19 de Novembro de 2020...
em que me sinto a Super Mulher de novo, mas desta vez com um trunfo na manga:
não me esquecer nunca de cuidar de mim!
Há outros dias, no entanto, em que me invade um torpor imenso,
e o meu coração e mente parecem cair num lago negro como breu, de onde não há saída.
Em que me sinto ora triste, ora irritada, ora apática.
Observo estes sentimentos e deixo-os correr, deixo-os respirar.
Contrariá-los e esconder o que sinto não resulta.
Respiro fundo e tento não me afogar.
Escrevo uma carta ao meu filho, num caderninho que me acompanha.
Choro. E tento de novo.
Tenho muitas esperanças para 2021. Muitos planos. Muitos motivos para sorrir.
A vida não nos traz sempre alegrias, mas cabe-nos a nós saber dançar ao seu ritmo.
Não somos definidos pelo mal (ou bem) que nos acontece, mas pela forma como reagimos.
Embora desse tudo para não ter perdido o meu bebé tão desejado,
sei que no futuro irei recordar o ano de 2020 como o ano em que tive de cair para me levantar.
Em que as adversidades foram tais que me forcei a colocar-me em primeiro lugar,
em que aprendi a dizer não, em que me apercebi que tenho um limite, que tenho de descansar,
e que mereço dedicar tempo a fazer aquilo que gosto, sem culpas...
Todo o meu percurso durante estes 30 anos me trouxe a esta plataforma de lançamento.
Tenho uma profissão que adoro, uma família que amo, um companheiro perfeito na sua imperfeição.
2021 que venha, este ano não tenho resoluções, tenho sonhos.
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